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caixa d'água

POR LAILA BEATRIZ DA ROCHA LODDI

Caixa d’água é caixa líquida. Não o líquido de Bauman, buscando identidade em mundo que se dissolveu, mas o líquido no devir mulher água. É Yemanjá, Oxum e Nanã, que se banha no mar, nos rios, nas cachoeiras e se molda na lama. Emerge aí a possibilidade de desfazimento e de renascimento, potência diante de um mundo ingovernável onde as grandes narrativas já não são mais possíveis. Possibilidade dessa escuta decolonial que desvela um horizonte de incertezas, confrontando os instrumentos teóricos nesse mundo contemporâneo que, assim como a água entre os dedos, não cessa de nos escapar.

Evoco o elemento água para preencher a caixa autobiográfica proposta neste exercício de tensionamento da colonialidade do saber e do sentir.  Situo neste espaço uma fresta onde a decolonialidade pode emergir: pode brotar como água na nascente. A pergunta que nos foi lançada é ponta de lança: como as dores da cicatriz colonial atravessam a caixa autobiográfica? Em minha caixa líquida elas procuram se desmanchar no solvente universal água.

O exercício que a decolonialidade pede parece ser a revisão. Rever e tentar desmontar uma ideia de universalidade, trazendo a consciência de que muitas coisas que sempre foram consideradas verdades podem se desmanchar. Rever ou transver o mundo, na linguagem escorregadia de Manoel de Barros. Em “O guardador de águas”, livro-riacho, Manoel deságua sua matéria líquida. O poeta nos convida a remexer as águas paradas do pensamento e reivindicar um saber pelo corpo.  

Nesse benzimento teórico, a água surge como elemento que escorre, lava, limpa e transmuta. Mergulho nesse lago-caixa. Eu, filha de Oxum, pesquisadora branca pedindo licença para entrar em territórios populares de práticas de autoconstrução desviantes, onde se encontram processos criativos e singularidades estéticas. Eu, que cresci em uma ilha, cercada de água por todos os lados, saio encharcada deste processo nos regatos do autobiográfico. Ainda úmida, ouço a música “Banho”, de Tulipa Ruiz cantada pela rainha Elza Soares:

Acordo maré

Durmo cachoeira

Embaixo sou doce

Em cima, salgada

Meu músculo musgo

Me enche de areia

E fico limpeza

Debaixo da água

Misturo sólidos com os meus líquidos

Dissolvo pranto com a minha baba

Quando tá seco logo umedeço

Eu não obedeço porque sou molhada

Enxáguo a nascente e lavo a porra toda

Pra maresia combinar com o meu rio, viu

Minha lagoa engolindo a sua boca

Eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu

 

Banho.

Tulipa Ruiz e Elza Soares

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LAILA BATRIZ DA ROCHA LODDI

Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006), Mestre em Cultura Visual pela Universidade Federal de Goiás (2010). Professora da Universidade Estadual de Goiás. Tem experiência nas áreas de ensino, pesquisa e extensão em Arquitetura e Urbanismo, Design e Artes Visuais, atuando principalmente nos seguintes temas: processos criativos; desenho; arquitetura, corpo e cidade. Desenvolve assessoria técnica através de projetos de extensão universitária popular. Doutoranda no PPGFAU UnB - Universidade de Brasília, desenvolve atualmente pesquisa sobre arquivos de apagamento nas práticas urbanísticas e experiências cotidianas de produção de comum urbano. 

Architect and Urbanist graduated at Federal University of Santa Catarina (2006), Master in Visual Culture at Federal University of Goiás (2010). Professor at the State University of Goiás. Has experience in teaching, research and extension in Architecture and Urbanism, Design and Visual Arts, acting mainly on the following themes: creative processes; drawing; architecture, body and city. Develops technical advice through popular university extension projects. Doctoral student at PPGFAU UnB - Universidade de Brasília, currently develops research on urban practices and everyday experiences of urban production.