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CAIXA AUTOBIOGRÁFICA: EXTENSÕES DE UM EU FRAGMENTADO

POR WALLACE J. DE OLIVEIRA FREITAS

E se ousássemos tentar materializar em uma caixa (ou caixas) partes do nosso imaginário, dos nossos desejos, dos fragmentos de memórias, do tempo: ora preso ao passado ora pisando num futuro incerto? O exercício em si me engole em dúvidas e penso que delas brotam discussões mais frutíferas que a entrega de “uma caixa solucionada”. 

 

Meu leitmotiv inicial, que seria um recorte temporal desse quase um ano e meio aqui em Goiânia (sou de Natal-RN e me mudei para o cerrado por causa do doutorado) e seleciono conscientemente ou inconsciente pontos que neste momento minhas sinapses fizeram questão de tornar apetecível para minha caixa. 

 

Por falta de tempo, despreparo e falta de vontade, eu praticamente não cozinho nada e tudo que eu como vem de lugares que não vejo a pessoa cozinhando, acontece que, desde o primeiro dia em Goiânia, eu venho guardando os sachês de ketchup e maionese: não os como mas também nunca jogo no lixo (não sei porquê!) até encontrar o quanto eles entulhados poderiam ser significativos para minha existência - eu os estava guardando para este trabalho, se fôssemos para um viés místico. 

              

Trago então como elemento constituinte da caixa esses um ano e meio de sachês guardados que poderiam, em minha visão, se relacionar com meu cotidiano, o consumismo, a construção do eu e das subjetividades a partir do alimento, do que é comido por mim, as toxicidades permeadas pela preguiça de tentar uma vida mais saudável.

 

Outro ponto, e sempre invoco o assunto, é a sexualidade. Sempre fui muito sexual, como diria Aristófanes – das partes baixas – ao explicar a comédia enquanto estilo. Ao me mudar para essa nova cidade trouxe o término de um relacionamento de mais de 3 anos nas costas e me joguei nos Fast-Fodas acessíveis em diversas plataformas digitais (Tinder, Grindr, Hornet). Nesse sentido, como nas fotos, me coloquei (e as vezes ainda me coloco) na mesma situação dos alimentos comprados, comidos e consequentemente jogados quando sobravam. Sobre o que sinto nisso tudo, duas palavras: prazer e toxicidade. 

 

O exercício da autobiografia é terapêutico e pode ser doloroso e transgressor. Escrever sobre si. Se colar numa caixa. Deixar que você me olhe mais perto do que eu gostaria. Me colocar em vulnerabilidade para o outro. Tirar a tampa da caixa e descobrir que sou mais abismo.

WALLACE J. DE OLIVEIRA FREITAS

Professor Performer. Doutorando no Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Performances Culturais (PPGIPC) da UFG. Mestre em Artes Cênicas através do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN no qual desenvolveu pesquisa sobre o multiartista belga Jan Fabre. Possui Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Atualmente professor temporário substituto no Instituto Federal de Goiânia (IFG) na área de Artes/Teatro e segue pesquisando as relações do teatro com a performance art.

Professor Performer. Doctorate in the Interdisciplinary Program of Post-Graduation in Cultural Performances (PPGIPC) of UFG. Master in Performing Arts through the Graduate Program in Performing Arts of UFRN in which I developed research over the Belgian multiartist Jan Fabre. I also have a Degree in Theater from the Federal University of Rio Grande do Norte - UFRN. Currently acting as substitute professor at the Federal Institute of Goiânia (IFG) in the area of Arts / Theater and keep researching the relations of theater with performance art.

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Espaços Autobiográficos / PPGACV-UFG /  2020